a santa e o silêncio

Como descrever o que se passa durante o encontro entre Nossa Senhora e os futuros habitantes do inferno?


Por Felipe Cruz, com fotos de Evna Moura



Como muita coisa no imaginário católico
, a festa do Círio de Nazaré tem origem em uma aparição. Em outubro de 1700, um homem chamado Plácido José de Souza encontrou, às margens de um córrego na estrada que ligava o Pará ao Maranhão, uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré de feições indígenas, talhada em madeira e coberta por um manto, e a levou consigo para casa.

A aparição em si não sugere nada de milagroso. Plácido relatou acreditar que a santa teria caído da bagagem de algum viajante; no entanto, por dias seguidos, ele acordava e percebia que a imagem havia desaparecido de sua casa, e todas as vezes a reencontrava no mesmo ponto do córrego à beira da estrada em que a havia visto pela primeira vez.

Foi essa insistência da santa em retornar sempre ao mesmo lugar o que a Igreja Católica considerou um milagre, o que transformou aquela imagem num objeto idolatrado pela população da região e o que fez com que uma basílica fosse construída ali, naquele córrego, para abrigar Nossa Senhora de Nazaré.

A primeira procissão organizada em Belém para homenagear a santa se deu em 1793, e desde então todos os outubros são dedicados à celebração do Círio. Trata-se de uma festividade de mais de um mês de duração que culmina na maior procissão mariana do mundo, no segundo domingo de outubro, quando mais de dois milhões de devotos seguem a imagem pelas ruas da capital paraense. É também na rua que a megaprocissão cruza com a maior festa LGBTQI+ do Pará.

 

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As fotos integram ‘Translocas’, ensaio feito ao longo da década passada na Festa da Chiquita

 

A Festa da Chiquita acontece em Belém desde a década de 70. Entre 1975 e 1976, ela consistia em um bloco de Carnaval organizado por grupos de homossexuais, reunindo artistas, jornalistas e professores motivados pela necessidade de expressão da população não-heteronormativa belenense. Cunhado em 1978, o nome é inspirado na canção A filha da Chiquita Bacana, de Caetano Veloso, hoje uma espécie de hino do evento.

Há 45 anos, ser LGBTQI+ não era mais fácil do que hoje, muito pelo contrário; no entanto, a festa fazia parte da programação oficial de Carnaval da capital, um período do ano no qual certas existências passam a ser toleradas, as condições para o convívio são momentaneamente distorcidas e é possível brincar de ser livre.

O cortejo da Chiquita deságua no tradicional Bar do Parque, referência desde a década de 60 para a vida boêmia e intelectual da cidade (hoje um lugar descaracterizado e bem menos acessível). O bar fica ao lado do também tradicionalíssimo Teatro da Paz, um dos vestígios mais imponentes do ciclo da borracha que fez de Belém uma cidade rica no século 19. Ambos estão situados na Praça da República, no centro da cidade, o principal elo entre a Festa da Chiquita e o Círio de Nazaré.

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No sábado anterior ao domingo da procissão do Círio, ocorre a chamada trasladação: a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é levada para pernoitar na Catedral da Sé, num ato que costuma reunir mais de um milhão de pessoas, muitas das quais dormem na rua.

Por volta das nove da noite do sábado, esse percurso passa ao lado da praça da República. Ocorre então um encontro que pode ser lido, à primeira vista, como paradoxal ou polarizado: os milhões de devotos segurando velas cruzam com os frequentadores da Chiquita; por alguns minutos, uma festa com performances de drag queens, música alta e muitas orientações sexuais e identidades de gênero coexiste com a preparação para um dos maiores eventos religiosos do planeta. (Há uma teoria de que a Chiquita, antes realizada no Carnaval, passou a acontecer em outubro especificamente por causa dessa incongruência, ainda que não seja um consenso formal.)

É comum que a Chiquita seja tratada como uma espécie de deboche, uma resposta malcriada à festa católica com a qual divide o espaço e, por alguns minutos, o tempo —quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré passa pela Praça da República, o palco da Chiquita já está de pé, as bichas já estão montadas e todos assistem à sua passagem, calados e até circunspectos. É uma imagem que a maioria dos belenenses já testemunhou, mesmo que só na televisão: Nossa Senhora passa como que flutuando sobre a multidão, e na praça estão todos em silêncio, voltados para si. Não é antes da santa desaparecer na avenida Presidente Vargas que a Festa da Chiquita começa, numa espera inchada de sentidos que deve ser compreendida em sua perturbadora complexidade. É este silêncio antes da explosão na Chiquita o que me atinge.

 

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No início do ensaio Notas sobre o camp, Susan Sontag escreve: “Muitas coisas no mundo não receberam nome, e muitas coisas, mesmo que tenham recebido nome, nunca foram descritas.” Me parece, em parte, que escrever este texto é dar nome a algo que ainda não tem nome, ou que, ao menos, ainda não foi descrito. Sinto também que há um nome e uma descrição para aquilo que quero escrever, mas me parece que em uma linguagem outra que não a erigida sobre categorias fixas, binárias, uma lógica outra que não a de afirmar que algo é uma coisa porque não é outra. Um modo de existir no mundo que não se afirma pela exclusão das outras possibilidades de ser, mas pelo acúmulo de possibilidades que desabrocham, simultaneamente, nos mesmos corpos híbridos e inconstantes.

Quando presenciei esse instante solene entre os participantes da Chiquita pela primeira vez, me perguntei se aquela era uma mudez de vergonha —ou, quem sabe, de medo. Enquanto a santa que é conhecida como a Rainha da Amazônia passava pela rua, imaginei que as drags, os gays, as lésbicas, as mulheres e os homens trans, os bissexuais e tantas outras existências fora do padrão sentiam-se constrangidos diante da imagem imaculada, cercada de flores por todos os lados, protegida por uma berlinda que parece feita de ouro. Imaginava que todos ali pensassem, então, no inferno que os aguardava após esta vida, penitenciando-se pelo pecado de existir desde tão cedo, tão cruelmente cedo, imposto a nós que não cumprimos com o contrato da heteronormatividade. Era o que me ocorria porque era o que eu também sentia. E acredito ser esta a palavra mais importante na descrição do que acontece na festa: também.

Foi com o tempo que compreendi que o silêncio não era apenas uma espera, era também uma participação: a Chiquita não acontece apesar do Círio ou contra o Círio, mas por causa do Círio, junto com o Círio. Isto é, acredito, o que insulta mais profundamente aqueles que insistem que a Festa da Chiquita não seja ligada, de forma alguma, às festividades em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré: como é possível que tantos degenerados tenham a audácia de se sentirem filhos da mãe de Jesus Cristo? 

O silêncio da Chiquita enquanto Nazaré passa também é um sussurro; olhando de perto e escutando com calma, ouço as preces feitas pelas bichas, fanchas, bis, trans, montadas, discretas, sigilosas, etc. Ouço, densos, os pedidos que a Igreja considera uma profanação, feitos por quem a Igreja afirma estar perdido. Ouço, vejo, presencio e me pergunto: como é possível? Como descrever o que se passa durante o encontro entre uma santa e os futuros habitantes do inferno?

 

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O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro escreve sobre a inconstância da alma selvagem ao descrever a pluralidade radical de visões de mundo reconhecidas pelos povos tradicionais amazônicos: para muitas populações ameríndias, cada ponto de vista funda um mundo, numa cosmogonia sem absolutos, na qual a compreensão da realidade fundada pelo ponto de vista do outro é parte essencial do processo de desenvolvimento dessas comunidades. 

Há uma constante oscilação no modo como nós, moradores da região amazônica, apreendemos ensinamentos que nos são apresentados como dogmas; me parece que frequentemente inoculamos uma nova realidade, gerada por um ponto de vista imprevisível, na realidade dada como pétrea. 

Enquanto a Igreja Católica se utiliza do Círio também como modo de reafirmar dogmas que condenam a comunidade LGBTQI+, esta comunidade enxerga na imagem de Nossa Senhora de Nazaré uma aliada, uma cúmplice, uma mãe. Talvez isto nos seja dado por crescermos numa região tão violentada e difusa, na qual qualquer noção de pureza é ridícula na medida em que não dá conta de descrever os nossos rituais mais simples.

No filme Filhas da Chiquita (2006), da documentarista Priscilla Brasil, Eloi Iglesias, organizador do evento, diz acreditar que Nossa Senhora de Nazaré prefere a festa profana à religiosa: “Uma santa que se monta com coroa e manto cravejado de pedrarias não vai gostar da Chiquita?”. O ponto de vista é irreverente, mas não sarcástico ou irônico: de fato, a imagem de Maria é enfeitada para as procissão, e a “montação” da santa é um elemento tão essencial ao ritual que um dos principais momentos do Círio é a apresentação do manto a ser usado naquele ano diante dos fiéis mesmerizados —assim como nas performances de drag queens, o traje também é pensado para impactar o público. A fala de Iglesias também revela a inconstância de uma sensibilidade: nem mesmo uma santa é a mesma sempre. Transformada pela singular proximidade que os paraenses aprendem a sentir em relação a ela, Nossa Senhora de Nazaré compõe a identidade mesmo daqueles que não são bem-vindos na celebração oficial, institucionalizada —uma maneira de compreender que o Círio de Nazaré, há muito, não pertence à Igreja Católica, mas às pessoas e suas oscilações.

Essa inconstância é transgressora porque vai de encontro a um dos pilares da religião: a conversão da cultura em natureza. Aprendemos desde muito cedo que a natureza é dada, enquanto a cultura é construída, ou seja, a natureza é imutável, a cultura é maleável. Um expediente recorrente das religiões é apresentar aspectos socioculturais das comunidades humanas como se fossem manifestações de uma ordem natural (a vontade de Deus), transformando-os em dogmas que não podem ser questionados. 

Entre esses aspectos constam, é claro, os papéis a serem desempenhados por homens e mulheres na sociedade patriarcal. A divisão de gêneros, na religião, é equivalente à divisão entre sexos; é biológica, é uma lei da natureza, expressão das mais interessantes porque poucas palavras carregam tanto o peso da cultura em si quanto “lei”, que nomeia um sistema de regras criado por humanos: inventado, imposto, construído. Não há qualquer dimensão natural em nenhuma de suas acepções, a não ser para as religiões (a lei da natureza é, pois, a lei de Deus). 

É também por essa razão que a Festa da Chiquita e seu silêncio durante a passagem da santa me intrigam tanto: as populações LGBTQI+ denunciam e combatem ativamente, há séculos, a imposição da cultura como um elemento natural. Quando um homem se monta e se apresenta vestido com roupas femininas, dublando uma música cantada por uma mulher, e comove o público com sua performance, o que está sendo comprovado é que as construções sociais geram reações e emoções legítimas, palpáveis —o que não faz delas inquestionáveis, absolutas, naturais. Ao ficarem em silêncio diante de uma santa católica, virgem, passando quase no meio de uma festa mundana —não por medo ou vergonha, como já acreditei ser o caso, mas por se sentirem parte daquele fenômeno— os participantes da Festa da Chiquita me dão a impressão de remodelar ainda mais a cultura e evidenciar seu caráter fluido, ainda que o ponto de onde flui essa cultura seja fixo e, também, autoritário.

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Numa brilhante analogia sobre o conflito entre cultura e natureza, o filósofo francês Bruno Latour reivindica a necessidade de reatarmos o chamado nó górdio —um nó mítico, dado pelo rei Górdio, da Frígia, impossível de ser desatado e, por isso, desfeito por Alexandre, o Grande, com um golpe de espada que destrói a complexidade de suas tramas. Este nó é, para Latour, o xis da questão: “Qualquer que seja a etiqueta, a questão é sempre a de reatar o nó górdio, atravessando, tantas vezes quantas forem necessárias, o corte que separa os conhecimentos exatos e o exercício do poder, digamos, a natureza e a cultura.”

O nó desfeito à força pelas epistemologias científicas ocidentais nunca me parece ter sido desatado, mesmo que à força, no lugar em que vivo —não me parece que tenhamos acreditado que alguns elementos de nossa experiência devessem existir em separado de outros, pois sempre fomos atravessados pela natureza e pela cultura simultaneamente. Como poderíamos sequer cogitar raciocinar como se essas categorias fossem paralelas, uma vez que o tipo de exploração (cultura) imposto sobre a nossa região foi construído para fazer da terra (natureza) um instrumento de sustentação do poder colonial? Numa região em que natureza é poder, as perguntas são mais complexas. Dessa forma, por que a Chiquita deveria ser um deboche do Círio? Por que existir enquanto bicha, fancha, trans, bi, deveria significar uma revolta contra a mãe de Jesus Cristo? 

A resposta imediata que me ocorre para a última pergunta é: porque a Bíblia Sagrada nos comunica que queimaremos no inferno, que não é nosso o reino dos céus e que, para termos acesso a esse reino, é necessário reconhecer que nosso desejo é uma falha e que todas as ações motivadas por ele são um pecado, um crime. Porque esse dogma nos faz sentir vergonha de nós mesmos e nos constrange a passarmos anos de nossas vidas escondendo quem somos. Porque esse conjunto de “leis da natureza” oferece subsídios argumentativos que sustentam os projetos de aniquilação da população LGBTQI+ ao redor do mundo. Porém, o silêncio na Chiquita, as preces, os olhares úmidos mirando Nossa Senhora de Nazaré, libertam a santa de sua imagem institucionalizada, num processo de reconstrução da sua natureza, agora deflagrada em performance. Uma apropriação, um roubo: Nossa Senhora de Nazaré contrabandeada entre os corpos condenados à danação eterna, embalada pelas vozes que a Igreja quer rejeitadas pela festa católica, normativa, protocolar. 

“Eu aposto que a santa de verdade vem escondida pra Chiquita. Porque tu sabes, né, que essa que vai na procissão é uma cover”, nos conta Eloi Iglesias. É um deboche profundamente sério: há várias décadas que a imagem encontrada por Plácido à beira do rio não sai para a procissão. Uma réplica é usada para evitar que algo aconteça à original e, se pensarmos na mitologia em torno dessa imagem, lembraremos que seu primeiro milagre foi o de não permanecer no lugar onde queriam que ela estivesse.

O silêncio denso da Chiquita é também paixão arrebatadora pelo artificial, pelo inventado, pelo cultural que, nesse ponto, não se distingue, enquanto efeito que provoca nos indivíduos, do natural. É paixão pela possibilidade de construir, individualmente, uma relação significativa com uma santa que representa uma mulher do Oriente, mãe antes do casamento, aqui reconstruída com feições indígenas (os assassinados também pela fé cristã) e partilhar dessa possibilidade coletivamente, com seus companheiros de exílio —os exilados da norma, acolhidos por uma mãe ancestral. Os pontos de vista fundam mundos legítimos habitados por corpos interditados, ilegais, não reconhecidos. E a invenção desses outros mundos escancara as ficções deste mundo que tantas vezes nos é apresentado como se fosse a natureza, o absoluto: o silêncio denso da Chiquita é um chamado à insurgência, o que também é uma palavra para liberdade.

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