abandonar o barco

Ele me disse esperar a oportunidade para retribuir os favores que lhe fiz. Desejei não estar viva para ver tal dia


Por Ana Paula Pacheco


Decido abandonar o barco. 

Não sei nadar. Me diz uma palavra de consolo em seu idioma de chiados. Não importa. Não quero mais viver aqui. Ele ri com os olhinhos naturalmente esbugalhados, “Resta definir o que seja ‘aqui’”. Está sobre mim mas não quer se afogar junto, não é um escorpião nem eu sou um sapo. Quer me comer e não ser comido. Já foi um bicho de mercado, perdeu algum sangue. Não muito. Não virou um morto-vivo. Ao contrário, ficou mais esperto. 

Também eu arranco algumas escamas dele enquanto faço planos. Não tenho coragem de usar alicate ou faca, só unhas. Se é para fazer esse tipo de coisa, prefiro usar as próprias mãos. O processo é demorado. Paro quando sinto um frio na alma e me vêm pensamentos tristes: outro dia pensei em chupar uma escama dele como se fosse uma folha de alcachofra carnuda. Mas a lâmina é seca, dividiria minha língua em duas, como uma holotúria em seu corpo mole, espatifado por uma fatalidade. Diante do perigo minha língua se divide. A língua que lambe e desliza; a que apodrece depois de pesar e dormir no fundo do rio. Se eu me dividir em duas a parte estranha pode recriar a dialética. 

“Holotúria” é uma palavra linda, que se bifurca em naufrágio e salvação, ontem e amanhã, antes e depois, palavras pálidas de tão gastas. A crosta do bicho é uma costura de pústulas, sinto pena e um nojo esquisito. Também sinto vontade de transar com o bicho no meio do rio de lágrimas. Dá tesão, a sujeira dos outros —ele aperta os olhinhos pretos sem íris. Agora já tenho um mapa sobre-aquático para nos tirar daqui. 

Mando os peixes chamarem Noé —no passado ele me disse esperar a oportunidade para retribuir os favores que lhe fiz. Desejei não estar viva para ver tal dia, mas aqui estou, sem pontes, estradas ou portas para sair do sonho. Retornar à vida gasta. Noé não é Moisés, não sabe andar sobre rios e mares. Sem barco, virou pescador terceirizado mas evidentemente conhece bem as águas. Um conhecimento acumulado quando salvou o mundo em priscas eras. 

Em dois segundos ele improvisa uma ponte móvel na qual as tábuas pisadas se deslocam na forma de caminho um pouco adiante. Ao mesmo tempo, a boa notícia é, não dá para voltar atrás. 1 miligrama de chumbo é igual a 1 miligrama de asas. 1 miligrama de sono é igual a um mililitro de água. 1 miligrama de livros é igual a 1 mililitro de tinta a 1 miligrama de arroz a 1 miligrama feijão a 1 miligrama tijolo a 1 miligrama de sódio e casca de ovo e escama de bicho e tempero e a 1 miligrama de alumínio e de columeias e a 1 miligrama de comprimidos e a 1 mililitro de água limpa ou contaminada. Nada disso alimenta a necessidade nem o sonho de ninguém. O mundo sem poesia chega a ser engraçado. Não fosse comigo, não fosse contigo. 

Decido de comum acordo com o bicho trilharmos o sinistro caminho. 

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