aids, comunistas e computadores

O que os filmes de terror dizem sobre os medos coletivos da sociedade


Por Rafael de Paula, com fotoilustrações de Henrique Artuni


 

Veja se é familiar: um grupo de jovens loucos e inconsequentes sai para curtir a vida. Vão para um acampamento, uma festinha ou qualquer coisa do tipo; entre eles, há uma garota meiga e pura, deslocada na libertinagem do ambiente. Certa hora, sem nenhum motivo em especial, eles se deparam com um assassino mascarado. É a personificação do próprio mal: uma figura sem rosto que mata sem pretexto algum e sem fazer distinção. Horas depois, a virgem traumatizada é a única que escapa da carnificina. De algum modo, ela consegue matar a besta e escapa —até a cena final, na qual descobrimos que o assassino segue vivo e pronto para as próximas 423 continuações da franquia.

Trata-se de um slasher movie, e exemplos do gênero não faltam —O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13, Halloween, A Hora do Pesadelo, O Brinquedo Assassino, para citar os mais famosos. Se entrarmos no lado trash da força, a lista é interminável. Mas o que essa matança desenfreada representa?

É impossível dizer com exatidão que todo um gênero corresponde exatamente a um aspecto vivido por aquela sociedade, mas há algumas pistas. Em primeiro lugar, a própria história norte-americana é bem sangrenta. Os EUA são o país com o maior número de serial killers no mundo, com mais de 200; a Inglaterra, segunda da lista, não chega a ter 50 casos. O mais famoso deles talvez seja Ed Gein, que influenciou, entre outros filmes, Psicose (1960), O Silêncio dos Inocentes (1991) e o já citado Massacre (1974). Trata-se de um gênero com regras conhecidas e muito exploradas, que chegaram a ser citadas de forma metalinguística por Wes Craven em Pânico, de 1996. Elas são seis:

Regra 1: Você não vai sobreviver se fizer sexo.

Regra 2: Você não vai sobreviver se beber ou usar drogas.

Regra 3: Você não vai sobreviver se falar “Volto já”.

Regra 4: Todo mundo é suspeito.

Regra 5: Você não vai sobreviver se perguntar “Quem está aí?”

Regra 6: Você não vai sobreviver se sair para investigar um barulho estranho.

De alguma forma estas regras se encaixam em quase todo filme slasher. Embora a maioria delas seja genérica (as regras de 3 a 6 também servem para Scooby-Doo), as duas primeiras requerem um pouco mais de atenção.

Pense em algo devastador, um flagelo de Deus, que surgiu do nada e começou a chacinar sem fazer distinção de classe, raça, convicções; algo que matava em sua maioria jovens cheios de hormônios, mas deixava ilesos os mais recatados, como se uma força invisível os protegesse. Festas regadas a álcool, drogas e sexo eram quase um convite à morte e ao maior medo dos anos 80, a epidemia da Aids. Se não bastasse a descrição —seja para o HIV, seja para Jason Voorhees— esse tipo de filme costuma deixar tudo mais explícito matando primeiro o namorado da protagonista, a maior ameaça à sua virgindade.

 

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Ainda lembro do primeiro filme que realmente me marcou. Era preto e branco, bem esquisito. Estava passando de madrugada, provavelmente na Band, e comecei a assistir mais ou menos na metade. Eu devia ter 10 ou 11 anos e lembro nitidamente das sensações daquela noite: um misto de medo, que me fazia querer desligar a televisão e correr para debaixo do cobertor, com uma curiosidade que não deixava que o fizesse. Lembro também da história: um homem queria achar uma esposa que lhe desse um filho. Ele matava um monte de gente e, no final, era morto pelos espíritos das suas vítimas. Naquele momento me apaixonei pelo gênero do horror.

O medo é uma das emoções básicas do ser humano, e não à toa: analisar e responder às potenciais ameaças foi uma capacidade determinante na evolução da espécie. É natural e útil ter medo. Mesmo assim, quando falamos em cinema, o gênero do horror sempre foi considerado algo menor, um patinho feio da sétima arte. Muitos abominam o estilo e o taxam de raso, o que é uma enorme injustiça. É mais fácil entender uma sociedade levando em conta o que ela teme, e esse temor coletivo costuma ser o principal tema do terror —algumas vezes de forma mais escancarada, outras vezes de forma subjetiva.

Claro que há um problema aqui. Este retrato não é exatamente da nossa sociedade, mas daquela que exerce domínio cultural sobre o resto do mundo, no caso, os EUA. Mesmo assim, analisar o gênero partindo desse ponto de vista traz conclusões interessantes.

Se nos anos 40 e 50 os monstros gigantes e criaturas radioativas criadas em testes nucleares malsucedidos, como Tarântula, de 1955, ou o clássico japonês Gojira, de 1954 —que viria a se tornar Godzilla na terra do Tio Sam—, a inspiração era bastante escancarada, os anos 60 e 70 já dificultaram mais com seus fantasmas, demônios e possessões. O pavor estava agora em ser controlado, em não saber quem é amigo ou inimigo, na possibilidade do vilão estar logo ao lado com um belo sorriso no rosto. Se na tela grande os aliens estavam entre nós, no dia a dia a sociedade americana vivia a histeria dos comunistas, que estavam em todo lugar. 

Provavelmente o mais importante filme do gênero, O Exorcista (1973), de William Friedkin, fala exatamente disso. Na trama, a atriz Chris MacNeil percebe mudanças dramáticas em sua filha Regan, de 12 anos, que passa a ter um comportamento destrutivo e imoral. Após consultar vários médicos em vão, ela é aconselhada a procurar dois padres, que conduzem uma sessão de exorcismo na menina.

Dado o atual excesso do subgênero de possessão no cinema, isso pode soar batido, mas quando foi lançado, o filme foi extremamente controverso por abordar temas incomuns de formas menos usuais ainda. Há a cena conhecida em que o demônio, encarnado no corpo de Regan, faz com que ela se masturbe utilizando um crucifixo de forma absurdamente violenta —se isso é chocante de se assistir ainda hoje, imagine em 1973. Mas as questões que interessam agora são um pouco mais subjetivas.

Em nenhum momento é descrito um motivo para Regan ser o alvo da possessão. Ela não fez nada para merecer aquilo; no entanto, fica subentendido que pagava pelos “crimes” de sua mãe. Como mãe solo e atriz —mesmo após a chamada revolução sexual—, Chris MacNeil estava fora dos padrões morais daquela sociedade, e logo deveria ser punida. Essa punição viria justamente por meio de sua filha, o fruto de seu pecado: uma jovem que, de uma hora para a outra, muda totalmente sua forma de pensar, agir e falar. A inocência americana corrompida por um demônio pervertor de mentes que veio do exterior (no caso do filme, o Oriente Médio), remete de imediato à ameaça da doutrinação soviética que chega bem no meio da Guerra Fria, com grupos políticos fervilhando pelos EUA, e no fim da Guerra do Vietnã, a grande derrota simbólica sofrida pelo país nesse período.

 

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No fim dos anos 90
e começo dos 2000, a quantidade de filmes que retratavam a tecnologia e o boom da internet chegava a enjoar. As found footages, fitas “encontradas” em locais de crimes ou desaparecimentos misteriosos, eram a galinha dos ovos dourados das produtoras, graças ao sucesso de A Bruxa de Blair (1999) e ao medo e curiosidade de um mundo virtual que se popularizava. A estética que acompanhava essas histórias era igualmente repetitiva, sempre com um personagem gótico vestindo os sobretudos voadores mostrados pela primeira vez em Matrix (1999). 

Ao mesmo tempo, refilmagens de longas estrangeiros eram feitas aos montes. O Grito, de 2004, O Chamado, de 2002, Água Negra, de 2005 —todos adaptados a partir de filmes japoneses— eram exemplos da tendência que vinha com a globalização. Não era só a América que sabia fazer cinema. Mesmo assim, para fazer sucesso lá, não bastava ser uma boa história; ela tinha que ser refeita aos moldes americanos, algo que continua até hoje. Foi apenas em 2020, afinal, que um filme não falado em inglês ganhou o Oscar —o excelente coreano Parasita—, desafiando a incapacidade do público americano assistir a filmes legendados.

Embora a indústria americana ainda domine o mercado, a popularização dos serviços de streaming deu acesso muito mais fácil aos medos e ideias de outros povos. Este ano, por exemplo, ganhou projeção o espanhol O Poço, da Netflix. Assim como Parasita, ele indica um ponto de saturação dos conflitos sociais, que são resolvidos na base da violência. 

Também estão em alta os filmes revivalistas, especialmente os que voltam à atmosfera dos anos 70 e 80. Seja através de reboots, remakes ou afins, como em Halloween (2018) ou O Brinquedo Assassino (2019), ou apenas por meio do clima e ambientação, como em todo o Invocaverso —universo cinematográfico da franquia Invocação do Mal e seus derivados— parece haver um desejo da retomada da estética do passado próximo, quase como o apelo de uma Belle Époque do terror. Como evidencia o slogan de campanha do atual presidente dos EUA, a sociedade americana vive uma crise, com um desequilíbrio de poder global e perda de espaço para países que crescem de forma exponencial, com destaque óbvio para a China. Talvez o medo do amanhã os deixem apegados ao ontem. 

Claro que não existe pureza de gêneros: muitas décadas viveram mais de um estilo. Embora a ameaça nuclear fosse presente, os anos 50 tiveram os monstros clássicos; O Exorcista e O Massacre da Serra Elétrica têm apenas um ano de diferença, e quando este último foi lançado, o HIV não era uma preocupação. Em alguns casos, só é preciso um filme fazer sucesso para criar um subgênero novo, como aconteceu com A Bruxa de Blair. Mesmo assim o medo social é um valor a ser considerado, bem como sua época.

Me arrisco em dizer que o próximo evento que mudará o cinema de terror é justamente o atual. A pandemia da Covid-19 é tão grande que é impossível não pensar nas marcas profundas que ela deixará na sociedade global. Como o horror irá traduzir isso, apenas o tempo dirá.

 

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O filme que me pegou desprevenido no sofá de casa,
muitos anos atrás, chama-se À Meia-Noite Levarei sua Alma, do genial José Mojica, o Zé do Caixão. Uma das questões centrais da obra é a moralidade do personagem, um ateu que zomba da justiça divina e, claro, é punido por isso. Retrato perfeito para uma sociedade hiper-religiosa como a da época, que via a descrença como sinônimo de desvio de caráter. O medo chega até a ser secundário, quando paramos para pensar. 

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