caro leitor, cara leitora

Em uma entrevista que fiz com a escritora Maggie Nelson para esta edição —e que desisti de publicar na íntegra—, ela disse que

Imaginar a nossa destruição é mais fácil que lidar com as dificuldades da nossa coexistência. Imaginar que vamos todos nos extinguir de uma vez só é um alívio em comparação aos cenários mais prováveis, muitos dos quais já existem, que envolverão catástrofes distribuídas de forma desigual, sofridas a nível local, nas quais vamos precisar ajudar uns aos outros. (…) Acho que tem menos a ver com salvação e mais a ver com atenuação, que é subestimada.

Ela estava falando da mudança climática, mas acredito que a constatação valha para muito do que ocupa nossas mentes há alguns anos. Há uma razão pela qual as pessoas ficaram obcecadas com o clichê do fim do mundo a ponto de ele parecer a principal constante da cultura produzida na última década. Nos identificamos com essas representações a ponto de comprá-las, e elas nos oferecem refúgio nos aspectos nos quais ainda não conseguimos nos reconhecer. A essa altura, no entanto, vale perguntar: não é uma alegoria tediosa? Fatalista? Narcisista? Preguiçosa?

Muitos dos projetos de futuro do século 20 podem parecer, em retrospecto, absurdos, cafonas ou irreais, mas a inércia coletiva atual tem muito a ver com a falta de imaginação —a mesma que produz séries ruins de zumbis e versões distópicas do Tinder. A palavra apocalipse, no grego, não quer dizer fim do mundo, mas fim do ocultamento; é a crise de significado decorrente da revelação de uma verdade indigesta.

Esta revista está interessada em mostrar e interpretar objetos culturais que extrapolem essa lógica e propor alternativas a ela —novas realidades que têm menos a ver com uma visão pretensamente vanguardista da arte e mais a ver com o trabalho de formiguinha coletivo por um futuro menos pior, que parece ser o principal desafio deste século. Toda mudança, afinal, começa pela representação, pela crítica do que há e pela ficção do que poderia ser.

lc

O nome da revista remete a essa necessidade de recomeçar do zero —repensar os sistemas que estruturam o mundo atual, propor outras formas de existência— e à intenção de divulgar o trabalho de escritores e artistas emergentes, que não estão representados nos veículos sobreviventes da imprensa cultural nem na lógica atual de distribuição de conteúdo na internet —que monopoliza certos temas, isola a discussão em nichos e prioriza a familiaridade em detrimento da qualidade e da experimentação.

Iniciada em fevereiro de 2020, a zero já nasce obsoleta, de uma certa forma. Ao pautar os textos e artes aos colaboradores, não previ o surgimento de uma pandemia que subverteria prioridades, uniformizaria radicalmente a experiência humana e exporia a precariedade existente no mundo com um didatismo que beira o vulgar. Espero que, mesmo assim, a experiência de leitura seja estimulante, prazerosa e um pouquinho incômoda. Só um pouquinho.

Boa leitura, e obrigada pela escolha,

Laura

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s