gelo gigante

As intervenções artísticas monumentais contra o aquecimento global mostram o quanto a consciência dos seus autores se apartou da realidade


Por Dean Kissick


Não leia este ensaio. Imprima-o. Ponha nele um lacre. Enterre-o no chão frio por cem anos. Deixe-o para alguém ler daqui a um século.

[Passa um século.]

Ah, século! Enfim, futuro leitor, podemos começar. Venha comigo numa jornada de volta aos anos 2010, quando começamos a enlouquecer de vez. No início da década, Karl Lagerfeld trouxe um iceberg (bom, um bloco de gelo de 265 toneladas que foi posteriormente lapidado no formato de iceberg pela sua equipe de escultores) do norte da Suécia até o Grand Palais, em Paris, para adornar o cenário do desfile outono-inverno de 2010 da Chanel.

Cinco anos depois, o artista Olafur Eliasson trouxe 12 blocos de gelo gigantescos, tirados de um fiorde na Groenlândia, também até Paris, ao Place du Panthéon, e os dispôs em formato de relógio no piso de paralelepípedo. A obra, feita em colaboração com o geólogo Minik Rosing, ganhou o nome de Ice Watch. Seu propósito, no entanto, era muito diferente do de Lagerfeld. Eliasson pretendia chamar atenção para as mudanças climáticas, e faria isso trazendo gelo para derreter na capital francesa.

Ele sincronizou sua instalação para coincidir com a respeitável conferência do clima da ONU sediada na cidade, na qual líderes mundiais se reuniriam para estabelecer metas de longo prazo visando reduzir as emissões de gases de efeito estufa e o aumento nas temperaturas globais. Assim, enquanto políticos no subúrbio de Le Bourget acordavam a uma série de objetivos vagos e impossíveis de fiscalizar que não seriam cumpridos, do outro lado da cidade, no Quartier Latin, o gelo derretia devagar. Se tivessem ido lá, os políticos poderiam se sensibilizar a ponto de fazerem um esforço maior. Mas eles também poderiam se perguntar: qual parte disso tudo tem a ver com a mudança climática? Aquele gelo não estava derretendo por causa do aquecimento global, mas porque tinha sido transportado do outro lado do mundo até o Place du Panthéon.

Certa noite, Eliasson convidou um grupo de dançarinos e coreógrafos para improvisar uma dança interpretativa ao redor de seu relógio congelado. Eles giraram lentamente em volta da superfície do gelo, abraçando-o, acariciando-o, pondo os ouvidos nele e escutando seu som enquanto ele derretia (bem como a música de Jamie XX que tocava no fundo). Não parece um pesadelo? Um pesadelo estético? O que Paris, que foi o lar de Picasso, Debussy e do balé russo, fez para merecer isso?

“Olafur”, disse um dos dançarinos à New Yorker, “queria que a gente fizesse parte da jornada gradual rumo à empatia… Para mim, não era uma questão de me converter numa cristalização do gelo, mas de me integrar à transição do gelo”. Para entendermos o gelo, em outras palavras, Eliasson e seus dançarinos sugeriram ser preciso primeiro nos tornarmos parte do gelo. Somente então seria possível entender o impacto da mudança climática. Se transportar um iceberg por mais de mil quilômetros era um espetáculo decadente de glamour e obscenidade para Lagerfeld, nas mãos de Eliasson o mesmo gesto é reimaginado como gerador de empatia. Icebergs são apenas símbolos de interpretação mais livre no grande atoleiro cultural, afinal. A mise-en-scène outonal e sexy de um homem é o relógio da aflição milenar de outro.

Para sua obra de arte conceitual Vatnajökull (The Sound Of), de 2008, Katie Paterson pôs um microfone na lagoa islandesa de Jökulsárlón e o conectou a uma linha telefônica. Qualquer um que ligasse poderia ouvir a geleira acima dela derretendo em tempo real. Do mesmo modo como os dançarinos de Eliasson tornavam-se parte do gelo, a inspiração para o trabalho veio, segundo ela contou à NPR, de uma série de sonhos febris nos quais ela imaginava que o copo d’água do qual bebia a transformava em parte da geleira prestes a desaparecer. (Isso me lembra de quando tomei MDMA pela primeira vez e pensei ser um cachorro.)

Em um trabalho mais recente, Future Library (2014-2114), Paterson começa plantando mil pinheiros em uma floresta nos arredores de Oslo e encomendando o primeiro de cem livros originais a serem escritos por uma centena de autores, a começar por Margaret Atwood. A cada ano será feita uma cerimônia para registrar a entrega de um título novo. O primeiro estará disponível para leitura em 2114, quando bibliotecários cortarão todos os pinheiros, os transformarão em papel e imprimirão todos esses livros pela primeira vez. Até lá, a coleção crescente de manuscritos de Paterson seguirá guardada. Quando a nova Biblioteca Deichman, em Oslo, abrir neste ano, eles serão armazenados em caixas de vidro na “sala silenciosa”. Uma sala silenciosa, em uma biblioteca. Uma sala cheia de livros que ninguém pode ler. Fantástico.

Cada escritor convidado para colaborar com o projeto recebeu uma caixa para o seu manuscrito, com três regras: eles não podem dizer o que puseram lá dentro, não podem contribuir apenas com um álbum de fotos e os livros precisam incluir ao menos uma palavra de texto. A imagem é impactante: nas ruínas esturricadas da Noruega do século 22, em meio a um mar de cinzas, os últimos homens descobrem uma pilha oculta de livros, escritos por autores do porte de Atwood, Han Kang, Karl Ove Knausgård, David Mitchell, Elif Shafak e Sjón; finalmente, a abrem com cautela para descobrir que todos eles, na verdade, são feitos de uma palavra só.

Será que desistimos do gênero romance a tal ponto que os nossos melhores escritores têm de dar seus livros para que artistas os enterrem por um século? Mas a arte, com todo o seu dinheiro, bebe de tudo agora: literatura, dança, ambientalismo, boas intenções e o sistema de bibliotecas da Noruega.

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Uma das muitas previsões assustadoras para o futuro é que a cultura dos anos 2110 não seja tão diferente da cultura de hoje. Três anos após a abertura da biblioteca do futuro, no ano de 2117, a canção 100 Years, de Pharrell, será lançada. Até o momento, os únicos que a ouviram foram Pharrell, seus produtores e a centena de convidados que foram a uma festa especial em Xangai patrocinada pelo conhaque Louis XIII da Rémy Martin. O que acontece se essa for a melhor canção já composta e ninguém mais tiver como escutá-la?

Após a festa, a última canção de Pharrell foi trancada em um cofre nos porões da Rémy Martin por um século para conscientizar o mundo sobre a mudança climática e sobre o conhaque Louis XIII. A canção foi gravada em um disco feito de argila. O cofre foi construído de modo a permitir a entrada de água. Assim, se o nível do mar subir a ponto de inundar a cidade de Cognac, a última canção de Pharrell se dissolverá e será perdida para sempre, junto com boa parte da civilização mundial. “Acho importante”, disse ele à Vogue, “que cada ser humano —desde a pessoa mais ecoconsciente até o motorista de um caminhão de diesel— tenha noção da consciência terrena.”

Pharrell não dirige um caminhão de diesel. Ele dirige um Enzo da Ferrari, um Phantom da Rolls-Royce, um McLaren SLR da Mercedes-Benz e um SUV híbrido da General Motors Yukon. Mas talvez seja isso o que o soft power americano faça valer nos dias de hoje: fingir preocupação com o futuro para os fabricantes de conhaque francês enquanto eles afagam influenciadores e membros do mercado de luxo de Xangai.

Nenhum desses projetos é complicado. 100 Years do Pharrell não será lançado por cem anos. A Future Library de Paterson é uma biblioteca para o futuro. Os visitantes do Ice Watch de Eliasson podem assistir ao gelo derretendo. Além disso, ele parece um relógio. Na medida em que a sociedade rejeita a nuance, espere por muitas outras obras ambientais caras e pouco sutis a seguir. Setembro passado, o curador Klaus Littmann, inspirado em um desenho de Max Peintner de 1970, transportou 300 árvores até o estádio Wörthersee em Klagenfurt, na Áustria, para compor uma obra chamada For Forest. Este é o novo tipo de land art, no qual você apenas transporta objetos até as cidades. Todas as 300 árvores ficarão lá até o fim de outubro, quando serão replantadas nas proximidades como uma “escultura florestal”.

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‘For Forest’ (2019), instalação de Klaus Littmann no estádio Wörthersee em Klagenfurt, na Áustria

Cada uma dessas ideias precisa de muito carbono para ser executada. Para a continuação em Londres de Ice Watch, Eliasson mandou fazer um relatório da pegada de carbono gerada pelo transporte de nove contêineres de gelo refrigerado vindos de Nunk, a capital da Groenlândia. Foram emitidas 55 toneladas de CO2 no total; quase o equivalente, diz o relatório, a 52 pessoas que voam de Londres até a Groenlândia para ver o gelo por conta própria e voltam. A biblioteca de Paterson faz o caminho contrário, com voos para ela e para cada um dos autores até a Noruega, todos os anos, para apresentar a cerimônia de entrega dos manuscritos, o que provavelmente gera mais emissões.

No entanto, em vez de se aporrinhar com a logística de voar pelo mundo para exibir ou contemplar a arte contemporânea, e o modo como isso acelera a mudança climática —já que a pegada de carbono do mundo da arte permanece relativamente insignificante se comparada à de outras indústrias— podemos fazer outras perguntas sobre como o poder funciona, quem de fato toma as decisões de política ambiental e onde a cultura se encaixa nesse quebra-cabeça, se é que se encaixa em algum lugar. Quem financia esses projetos, por exemplo? De onde vem o dinheiro?

As três versões do Ice Watch, de Eliasson, em Copenhague, Paris e Londres, assim como a sua maluquice anterior —a mais alegre e menos didática New York City Waterfalls, de 2008— foram bancadas pela fundação Bloomberg Philanthropies, do empresário e ex-candidato do partido democrata à presidência Michael Bloomberg. Bloomberg é o nono homem mais rico dos EUA. Ele provavelmente tem uma parte razoável da sua fortuna de 60 bilhões de dólares investida em empresas de óleo e gás. Ele é defensor da extração de petróleo e autor de um livro (Climate of Hope: How Cities, Businesses, and Citizens Can Save the Planet) no qual explica porque acha que o fraturamento hidráulico faz sentido, porque não quer parar o oleoduto Keystone XL, e no qual descreve o gás natural como “uma dádiva para o meio-ambiente e para a saúde pública”.

Ele também é um enviado especial da ONU para a ação climática. A versão mais recente de Ice Watch, no Natal de 2018 em Londres, foi exposta em dois locais: do lado de fora do Tate Modern, que tinha encerrado recentemente o seu contrato de patrocínio de 26 anos com a gigante British Petroleum após anos de protestos, e do lado de fora da sede da Bloomberg na Europa. É arte centrista para políticos centristas. Um bloco de gelo vindo do outro lado do mundo que não quer dizer nada; o neoliberalismo esculpido em praça pública.

Quanto à Future Library, ela é apoiada pela cidade de Oslo; em outras palavras, por uma economia pujante sustentada pelo petróleo. É apenas outro jeito de gastar um pouco desse dinheiro em um país no qual cerca de 20% do PIB vem da produção de combustíveis fósseis.

A biblioteca e o relógio congelado são projetos de arte ruins, com certeza. Mas também são projetos de ativismo ruins, porque contribuem para a mudança climática sem fazer nada para amenizá-la, sem oferecer soluções, e são bancados pelas sobras da extração de combustíveis fósseis. Também fazem algo muito pior.

 

Vamos voltar no tempo outra vez, à Alsácia do início do século 16. Na cidadezinha de Isenheim, os artistas alemães Nikolaus de Haguenau e Matthias Grünewald pintam um altar para o Mosteiro de Santo Antônio. O trabalho que resultou disso é uma obra-prima incomum. As telas no estilo gótico tardio e os talhos em madeira foram feitos para aliviar os sintomas físicos e as alucinações psicóticas causados pelo consumo de pão contaminado com esporão-do-centeio, um tipo de fungo. Os portadores do ergotismo, a doença que ele provocava, vinham ao mosteiro rezar perante o altar na esperança de serem curados, o que fez o crítico de arte David Levi Strauss descrever a obra como “realismo terapêutico”. O altar prometia minimizar o sofrimento por meio de uma combinação mágica de ritual e arte.

Os artistas ecológicos mais conhecidos nos dias de hoje praticam uma nova forma de realismo terapêutico que promete ainda mais: curar o mundo por meio de performances e proposições metafóricas vagas. Há um aspecto ritual, até medieval, na imagem das dançarinas de Eliasson acariciando o gelo e o ouvindo morrer; ou na cerimônia fúnebre de entrega à biblioteca de Paterson no início de 2019, na qual a romancista Han Kang caminhou pela floresta norueguesa arrastando um lençol branco atrás de si, envolveu seu manuscrito nele como uma mortalha e o ofereceu para ser trancafiado pelo resto da sua vida.

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A ‘sala silenciosa’ na biblioteca Deichman, em Oslo, na Noruega. Ela abrigará os cem manuscritos encomendados por Katie Paterson (na foto) para a sua instalação ‘Future Library’ (2014-2114)

Tratam-se de rituais mágicos. A ideia parece ser a de que podemos salvar o mundo se as pessoas —outras pessoas, não os artistas ou seus patrocinadores— pararem de usar combustíveis fósseis e de destruir a Terra, e que é função do artista chamar atenção para o problema construindo metáforas desastradas com florestas e gelo e a própria paisagem, e organizando apresentações nas quais o público se limita a se sentir muito mal com relação a tudo. Não é algo apenas ineficaz, é irresponsável, porque coopta e desvia o foco dos esforços mais relevantes de conservação e ativismo, propagando a ilusão reconfortante de que tudo vai ficar bem se apenas nos importarmos mais —de que podemos salvar o mundo ao nutrir o sentimento certo. Mas não podemos.

Nas palavras da escritora e pesquisadora Lucy Chinen: “Com relação às obras gigantes de gelo: acreditar que as pessoas vão agir, tendo um detrito imenso de gelo do Olafur Eliasson como a única referência da materialidade do aquecimento global, é o maior fracasso da humanidade.”

Essas intervenções artísticas monumentais podem ter a intenção de nos tirar da apatia, mas penso que elas nos deixam mais passivos e indiferentes ao oferecer essas fantasias escapistas. Elas nos mostram o quanto a consciência de seus autores se apartou da realidade.

Obras gigantes de gelo não vão salvar o mundo, e ensaios como este também não. Então o que pode ser feito? Em The Great Derangement: Climate Change and The Unthinkable, Amitav Ghosh escreve que “a potencialidade grande e insubstituível da ficção é o que torna possível imaginar possibilidades”. A pergunta é: que tipo de novas vidas e mundos os escritores podem imaginar hoje? Para mim, Eliasson faz o seu melhor quando dá vazão ao seu amor pelo artificial, erguendo um sol de mentira gigantesco no Tate, correndo atrás de cachoeiras em Manhattan ou tingindo rios de verde em cidades ao redor do mundo.

Talvez ele devesse levar seus sonhos de geoengenharia adiante? Se existe um artista para dar uma guinada na land art ao semear os oceanos com ferro e ricos florescimentos de fitoplâncton, ou as nuvens com dióxido sulfúrico que deixa o céu vermelho-vivo, ou o Ártico com areias refletivas que aumentam a radiação incidente na Terra, ou inventar um novo tipo de máquina sequestradora de carbono em um estúdio de tamanho industrial em Berlim e injetar o carbono sequestrado em grandes formações de basalto debaixo da terra na Islândia —começar de fato a brincar de Deus— com certeza é ele.

Quanto ao que um romancista pode fazer: em vez de trancar sua escrita em um cofre na Noruega, ele pode tentar escrever um livro que inspire os leitores a agir no presente. O romance The Monkey Wrench Gang, de Edward Abbey, publicado em 1975, inspirou uma geração inteira de ativistas ecológicos. O modo criativo, mas prático, com o qual ele retratava as ações de vandalismo e sabotagem influenciou grupos de ação direta, como o Earth First! e o Earth Liberation Front, que tem como logo uma chave inglesa [monkey wrench, em inglês].  Que tal um grande romance americano que dramatize as relações íntimas entre os nossos líderes e as empresas de petróleo, ou que mostre exatamente como desligar um gasoduto, ou atirar em um transformador com um rifle, ou explodir armazéns em campos de fraturamento hidráulico, ou desativar uma refinaria com um vírus de computador? Hipoteticamente, claro. Quanto ao Pharrell, ele poderia queimar seus carros esportivos em uma fogueira cerimonial.

O caminho até o inferno está cheio de boas intenções. O clima pode colapsar completamente antes das soluções cômodas. Mas se os artistas e escritores que falam do meio-ambiente querem fazer alguma coisa, eles podem ao menos inventar ideias mais imaginativas e radicais.

 


A foto que abre o texto é de Martin Argyroglo, e retrata a instalação Ice Watch (2015), de Olafur Eliasson, na Place du Panthéon, em Paris

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