na placa de petri

A ciência como poética na obra de Catarina Sabino


Por Bárbara Blum


 

Desde transformar detalhes microscópicos de exames médicos em desenhos de grandes dimensões até coletar fiapos e os dispor em placas de vidro, a obra da artista plástica Catarina Sabino, 26, parte tanto da transformação de instrumentos científicos em objetos artísticos quanto do contrário.

Sabino, que já expôs no Sesc Ribeirão Preto e na galeria Lona, questiona dicotomias ao operar na fronteira porosa entre os extremos e mapear a zona cinzenta permanente onde o seu trabalho se situa. Em entrevista à zero, ela reflete sobre a sua produção durante o isolamento social e o uso da arte como forma de valorizar a linguagem científica.

 

De que forma os processos contemporâneos, como o isolamento, a pandemia e a efervescência do autoritarismo, têm impactado o seu olhar e a sua produção?

Meu ateliê é em casa, de modo que no começo da quarentena fiquei muito ativa. Mas com todas as questões políticas eclodindo, comecei a achar difícil colocar a minha força na produção, tudo parece um pouco sem sentido. Não vejo na minha obra um caráter político explícito, e acho que até por isso me paraliso um pouco durante períodos tensos.

 

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‘Organismos’, série de 2019

Mesmo sem um caráter político explícito, quais são as mensagens críticas da sua obra no momento?

Tento criar sensações mais do que mensagens. Criar uma pausa, uma suspensão, através do reconhecimento de um trabalho ligeiramente estranho, mas ao mesmo tempo familiar. Esse limiar entre o que é estranho e familiar pode gerar reflexões sobre o nosso próprio corpo, a nossa presença na terra, a morte, os processos cíclicos, as coisas que a gente ainda não consegue nomear. Ultimamente, vivendo nessa loucura da pós-verdade, me atrelar a termos científicos e trazer esse campo como uma referência para a minha produção —mesmo que em meus trabalhos ele ganhe um caráter fantasioso— é também uma tentativa de reaproximação da curiosidade científica que tem sido desacreditada. Tenho pensando muito em mapas e na própria questão da passagem do tempo. Estou com mapas, cartografias, relevos na cabeça.

Seus trabalhos anteriores eram muito voltados ao corpo humano, mas a coleta externa, a partir de explorações terrestres, vem aparecendo na sua produção recente. Essa ida ao macro dos mapas expande o seu processo?

Sim, talvez seja uma coisa de estar em casa e ter uma vontade de estar em outro lugar. Não vejo relevos e mapas como uma vontade de estar fora, necessariamente, mas enxergo uma similaridade de terrenos com a pele e o corpo, um processo de criar uma nova pele em outro lugar. Meu olhar para o próprio corpo tem vindo através do corpo terrestre e não tanto do corpo humano. Meu processo tem esses vaivéns.

‘Corpo estranho’, série de 2019

É uma coleta não só do que está na terra, mas também de elementos do corpo humano.

Nos meus trabalhos mais atuais, comecei a olhar muito para as partes internas do corpo humano e quase tirá-las lá de dentro. Me utilizo muito de imagens do interior, desde imagens de exames de ultrassom até livros de anatomia com órgãos e ossos. Trazê-las para fora do corpo faz com que virem um outro organismo —elas não fazem mais parte de um corpo, elas são um corpo em si.

Ao descrever os seus trabalhos, você propõe pensar menos nas distâncias entre opostos e trabalhar mais na zona cinzenta.

É uma questão-chave do meu trabalho. Pensar um dentro que parece fora, uma coisa pequena colocada em escala muito grande. O uso do preto e do branco, e a combinação do preto e do branco que é o cinza, é essa zona dúbia, na qual as coisas não têm tantos nomes, não têm muita forma. Gosto de pensar em como os extremos permeiam um ao outro, mais do que como pontos antagônicos.

Sua obra se organiza muito em torno da representação gráfica e se destaca pela sua escolha de materiais, como carvão, papel, pastel oleoso. Como essas escolhas dialogam com a sua poética e com as imagens criadas a cada trabalho?

Até o momento, só trabalhei com o preto e branco e o grafite, então a questão gráfica fica bem evidente, além dos materiais comuns à linguagem gráfica, grafite, carvão. Venho trabalhando com materiais mais oleosos, como o pastel oleoso e o bastão de óleo, ainda no espectro do preto e branco. Como estou em um processo de trazer o corpo para a minha poética, esses materiais, pela oleosidade, pelos tipos de manchas que produzem no papel, têm quase uma vida própria. E os papéis finos, minha base majoritária, me permitem criar sobreposições com transparências e fazer novas imagens a partir de um ponto de partida já imagético. Penso bastante no papel transparente como a pele, meio translúcido.

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‘Criaturas lineares’, série de 2015

 

Criaturas lineares, de 2015, foi o primeiro projeto no qual você começou a explorar a linguagem científica. Como se deu a incorporação desse olhar?

Comecei a recolher fiapos e pedacinhos de linha e tecido que encontrava por aí e a olhar para eles como criaturas. Eles são dispostos em placas de acetato, como se fossem placas de cultura de bactéria, para olhar no microscópio. As plaquinhas com as amostras, junto com livros de artista feitos a partir de colagens e gravuras, estudando essas criaturas, classificando-as em grupos, são elementos que brincam com a linguagem científica. Trabalho com muitas referências científicas, como desenhos de biologia, além do próprio esforço de classificar as coisas, vê-las como criaturas. Tenho essa ideia do cientista explorador, descobrindo coisas que não existem no mundo e que, a partir desse olhar da ciência, passam a existir.

 


Crédito da primeira foto: Juliana Brito.

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