o cogumelo no mundo sem fim

O que os matsutake nos ensinam sobre as interações entre humanos e não humanos


Por Bárbara Blum


 

No dia 11 de março de 2020, pouco mais de três meses após a identificação do primeiro caso de Covid-19, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia. A principal característica desse estágio de uma doença é a escala: uma pandemia exige que o agente esteja nos seis continentes do planeta. Milhões de pessoas entraram voluntária ou compulsoriamente em isolamentos sociais rigorosos. Altamente contagiosa e sem tratamentos ou vacinas que a controlem, a Covid-19 foi capaz de alterar a ordem social.

Em cenários como esse, a interação entre agentes humanos e não-humanos torna-se impossível de ignorar. Contudo, não é apenas diante de eventos biológicos de larga escala que podemos mapear esses emaranhamentos.

Em The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins, a antropóloga norte-americana Anna Tsing propõe, a partir de um exercício de “revitalização da arte da percepção”, tecer uma etnografia do ciclo comercial dos cogumelos matsutake. Além de compreender como as etapas de produção do cogumelo podem sinalizar caminhos para uma vida nas ruínas do capitalismo, Tsing mobiliza uma bibliografia de estudos do gênero, como Donna Haraway, para questionar a lógica do progresso na produção de conhecimento e propor metodologias de pesquisa que incluam o processo de “escuta e contação” de histórias na produção científica.

A escolha pelo matsutake como ponto de partida veio de uma percepção que permeia todo o livro: essa espécie de fungo só cresce em florestas “perturbadas” pela atividade humana e abandonadas em ruínas. Essas paisagens, as quais Tsing se esforça para colocar como protagonistas e participantes na história, são, segundo a autora, “produtos de design não-intencional, ou seja, da sobreposição de atividades formadoras de mundo de diversos agentes, humanos e não humanos” (tradução livre). Por apresentarem essa justaposição de atividades, as paisagens se tornam mais que “panos de fundo para a ação histórica: elas são ativas por si próprias”.

Ao propor a compreensão da paisagem como agente, Tsing retoma uma discussão frequente da antropologia contemporânea e questiona uma das bases do pensamento ocidental moderno ao recusar a separação entre a natureza e a cultura. Para ela, “a Natureza foi o pano de fundo e o recurso para a disposição moral do Homem, que poderia, então, domar e controlá-la”. Tsing aponta a etnografia como uma possibilidade de “aprender a pensar sobre uma situação em conjunto com seus agentes; as categorias da pesquisa se desenvolvem junto dela, não antes dela”, reiterando a crítica às bases atuais da produção do conhecimento científico.

Tomando uma direção similar à de Haraway e outros pesquisadores preocupados com as interações entre agentes humanos e não-humanos, como Bruno Latour, Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, a autora evita vincular o “fim do mundo” à humanidade enquanto espécie e prefere trabalhar com a hipótese de que a destruição ambiental seja um advento do capitalismo moderno. Ela questiona o prefixo “antropo” em Antropoceno, afirmando que “imaginar o humano a partir da ascensão do capitalismo nos vincula a ideias de progresso e de difusão de técnicas de alienação que transformam tanto humanos quanto outros seres em recursos”.

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‘Colheita de cogumelos matsutake no Japão’ (1796-1798), Niwa Taoxi

 

Publicado em 2015 pela Princeton University Press, The Mushroom at the End of the World é dividido em 20 capítulos curtos, ao longo dos quais Tsing relata processos que vão da história popular do matsutake no Japão —cujo aroma marcante, registrado em poemas que datam desde o século 8, anuncia a chegada do outono— até a o mapeamento de todos os processos econômicos que transformam o matsutake em um produto de alto valor agregado.

O livro passa por alguns estudos de campo no Japão, China, Finlândia e Estados Unidos, locais onde há coleta de cogumelos. A autora registra os diferentes grupos de pessoas interagindo nesses espaços —imigrantes, camponeses, veteranos de guerra, famílias— e atenta aos processos privados e públicos que fazem parte da dinâmica da comercialização do matsutake, as quais denomina como “pericapitalismo”.

Esse termo corresponderia ao espaço de interação entre o capitalismo formal e as práticas que escapam a ele, como a coleta precária e informal de matsutake, mas que, mesmo assim, se relacionam com ele. As florestas de matsutake, vistas pelos coletores precarizados como um espaço comum, seriam paisagens nas quais cabem “formas de vida que estão simultaneamente dentro e fora do capitalismo”. A partir disso, Tsing reflete sobre a precariedade do “destino que daremos à Terra” e questiona: com quais perturbações humanas somos capazes de viver?

A autora não enxerga a possibilidade de “salvar” o mundo a partir de um futuro revolucionário ativamente organizado por e para humanos, mas sugere que manter-se vivo, para qualquer espécie, requer “colaborações habitáveis”. Esses “projetos de formação de mundo surgem da atividade prática de gerar vidas”, e, nesse processo, são capazes de alterar o planeta.

The Mushroom at the End of the World é um livro sem encerramento. Assim como os capítulos-esporo, a última página não anuncia um fim, mas uma possibilidade: “Não é fácil saber como gerar uma vida, menos ainda como reverter a destruição do planeta. Por sorte, ainda há a companhia, humana e não humana.” 

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