um pouco de sorte, um pouco de trabalho

A construção (e a quarentena) de Ana Frango Elétrico


Por Laura Castanho


O bairro de Galdinópolis faz parte de Nova Friburgo, mas parece ser outra cidade. A população de 204 pessoas mora a quase 30 quilômetros do centro do município, literalmente mil vezes mais populoso. Como em qualquer parte da serra do Rio, é um lugar bucólico, quieto e bem mais frio que a capital; como em qualquer região rural erma, há mato por todos os lados e os sinais de internet e telefone são escassos.

Era lá onde a cantora, compositora e multiartista Ana Fainguelernt, 22 anos, estava com os pais e a irmã após o decreto da quarentena no estado do Rio de Janeiro, em março de 2020. Mesmo com dificuldades para produzir —e apesar do cenário que a cercava—, ela estava inquieta. Tinha começado a mexer em trabalhos antigos de fotografia, pintura e gravura, com a intenção de reuni-los num livro. E numa exposição. E num catálogo. E talvez num site. O importante seria jogá-los no mundo para se desapegar deles de uma vez. Já pensava no nome e na ordem das canções do seu próximo disco, que planejava lançar dali a um ano e meio ou dois, e num compacto com gravações de seu primeiro álbum, e num single de piano. Também tinha voltado a desenhar.

“Me sinto meio desorganizada em relação à minha produção”, disse. “Tenho muito material porque sou uma pessoa um pouco obsessiva.”

Sua visão artística, ela me explicou, estava ligada a um desejo de coesão; os artistas que mais a interessavam no momento —Rihanna, Björk, Eykah Badu, Tyler, the Creator— eram os que cultivavam um universo próprio que não se limitava à música, que entendiam o gênero musical como algo do passado. Todos os tipos de arte para ela, no fundo, eram tentativas de resolver um exercício estético.

“Tipo, eu tenho um quadro. A partir do momento em que eu traço uma linha, já não é como eu estava querendo, ou como eu imaginava que ia ficar, e até o fim eu fico tentando resolver e deixar de um jeito que esteja do meu agrado. Como me satisfazer num quadrado? A fotografia é isso, a pintura é isso, a poesia é isso e a música é isso, só que cada uma tem um campo de dimensão a mais ou a menos.”

O sítio dos pais na serra era o último lugar onde ela esperava passar a maior parte do ano. O início da quarentena tinha coincidido quase exatamente com a turnê de seu segundo álbum, e ela tinha conseguido fazer apenas quatro shows antes do período de reclusão forçada. Lançado seis meses antes, o disco a tinha projetado para o centro da conversa cultural: jornais e revistas de alcance nacional tinham publicado perfis dela, entrevistas ou críticas elogiosas ao álbum; a turnê, além de percorrer o Brasil, incluiria pela primeira vez shows internacionais em Portugal, Itália e Inglaterra, marcos simbólicos para uma artista com ambições de expansão internacional; seu produtor estava em vias de contratar uma equipe com iluminador, booker, técnico de som e projeção, entre outros; segundo ele próprio me contou, algum tempo depois, os cachês se multiplicavam de forma “exponencial” e ela logo poderia viver da própria arte. De uma hora para a outra, tudo isso tinha sido adiado indefinidamente.

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Ana Frango Elétrico nos bastidores de um show conjunto com a banda Rosabege, 2020

 

O sucesso de Fainguelernt como Ana Frango Elétrico, o nome artístico que passou a adotar há seis anos, se deve, nas suas palavras, a “um pouco de sorte, um pouco de trabalho”. Quem escuta suas canções, no entanto, logo percebe por que elas chamaram tanta atenção.

Apesar de resultarem de uma colagem eclética de influências —Nora Ney, Sérgio Mendes, Rita Lee, Baby do Brasil, Madonna, Chico Science, Burt Bacharach, Itamar Assumpção, Maiakóvski— elas não soam com uma paródia ruim ou um pastiche. Na verdade, não soam como nada que tenha sido feito antes; são profundamente originais, estranhas e, com frequência, muito engraçadas. Tudo nelas é peculiar: da voz aguda e levemente fanha de Fainguelernt às letras grudentas que flertam com o nonsense e aos arranjos que podem começar melancólicos e logo em seguida explodir em energia. São músicas que evocam diretamente a formação de quem nasceu a partir da metade da década de 90 e se acostumou desde cedo a receber todo tipo de referência —visual, auditiva, cognitiva— ao mesmo tempo e sem hierarquia via internet, uma geração menos constrangida por tradições. 

A persona de Ana Frango Elétrico —segundo Fainguelernt me explicou, uma versão hiperbólica, mandona e mais solta dela própria— complementa o sentido do que ela entrega no palco. A imprensa usou adjetivos como experimental, autêntica, desleixada, caótica, afiada, colorida, mágica e escancaradamente jovem para se referir a ela ou à sua música. Foi uma surpresa interessante, portanto, descobrir que Fainguelernt tem uma visão extremamente sóbria do próprio trabalho.

“Não me enquadro como hype”, afirmou. “Tipo, tenho 20 mil seguidores, sabe? Considero médio porte, um underground que deu certo. Eu não loto um Circo Voador, mas também não consigo mais fazer show numa casa superpequena. Fico pensando, sabe, cada expansão não é do nada, eu já tô há alguns anos fazendo isso. Sinto que batalho pra tentar me comunicar mais. Não tenho um público gigante.”

Por mais que parte das suas canções, especialmente no primeiro álbum, possa soar improvisada —quase como um ensaio de banda de garagem— cada elemento é intencional e calculado para gerar uma reação. A capa de seu primeiro disco, disse, tinha sido pensada mais para uma possível prensagem japonesa —que nunca aconteceu— do que para o público brasileiro. Ela também se cobra bastante. Tuitou certa vez que

Tem gente que acha que auto estima de artista é sempre lá em cima, napoleônica. não gosto de nada que já fiz, não acho meu álbum uma obra prima. É sobre coragem de se expor experimentar e melhorar ok? Lembrem disso antes de encher a porra do saco de alguém

“Me cobro, mas tenho orgulho também”, ela me disse depois. “Acho que tem muito a ver com esse vontade da discografia, sabe, do conjunto. Enquanto não tenho o conjunto definido, não consigo ficar tão em paz.”

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Em um show no Aparelho, 2019 (João Baraúna)

 

O medo da morte foi o impulso inicial para que Fainguelernt começasse a compor suas canções próprias. Quando era adolescente, ela teve um caso complicado de mononucleose e ficou algum tempo sem poder ir à escola. Começou a imaginar que suas amígdalas estivessem se corroendo, se esburacando, e que estava prestes a morrer. Sua reação a essa paranoia foi produzir canções, pinturas e poemas compulsivamente, na tentativa de deixar um legado o mais rápido possível.

Quando começou a se apresentar sozinha, cantando e tocando guitarra ou violão em palcos abertos de saraus e ocupações de secundaristas, ela já tinha passado por duas bandas e estudado por dois anos na Villa-Lobos, uma escola de música renomada do Rio (ela desistiu do curso por ser tímida e ter dificuldades em se relacionar; hoje pensa em voltar). A corruptela Frango Elétrico veio do apelido que seu avô recebeu na faculdade dos colegas incapazes de pronunciar seu sobrenome judeu russo. 

“Lembro que fiquei boquiaberto. Eu não sabia se ela era uma gênia ou se estava de sacanagem, se não sabia tocar direito”, me disse Santiago Perlingeiro, descrevendo o dia em que a viu tocar pela primeira vez. “Brinco que, anos depois, descobri que era os dois.”

Perlingeiro, naquela época, coordenava o CEP 20.000, um circuito tradicional de apresentações de poesia do Rio. Ele se aproximou de Fainguelernt e passou a convidá-la para outros eventos; os dois chegaram a namorar. Desde 2018, Perlingeiro é o responsável oficial pela labuta silenciosa da produção: é ele quem analisa contratos, marca shows, planeja estratégias de divulgação e fala com a imprensa. O plano de comunicação, ele me explicou, envolvia valorizar o ethos do-it-yourself desse início de carreira. “Ela não é filha de nenhum artista, do Caetano, do Gil, de não sei quem —que é uma coisa muito presente na cena do Rio. Não tinha nenhum empresário investindo, não tinha uma grana por trás.”

A partir dessas apresentações iniciais, as pessoas começaram a prestar atenção. O músico Guilherme Lírio —cuja formação é como guitarrista— logo se ofereceu para tocar bateria de um jeito “meio errado, meio esquisito” e passou a acompanhá-la. Alguns vídeos de Fainguelernt tocando circularam no YouTube, e ela esbarrou, num espaço de tempo relativamente curto, com músicos conhecidos na chamada cena alternativa carioca —Marcelo Callado, Gustavo Benjão, Thiago Nassif, Pedro Carneiro— que logo viriam a trabalhar com ela em seu primeiro álbum, Mormaço Queima.

“A Ana já veio meio pronta, sabe?”, me disse Nassif, um músico paulistano que se fixou no Rio em 2015. “Isso me chamou atenção nela. Porque ela tem um carisma, uma forma de compor, que é muito avançada em comparação ao que eu ouço dos compositores mais novos. Como músico, você fica anos pra conseguir chegar num estilo. A gente fica buscando, aprendendo como fazer, lapidando. Ela já veio com aquilo.”

Foi dele que partiu a sugestão heterodoxa de gravar o disco “ao contrário”: em vez de começar gravando as bases rítmicas separadamente, que é o habitual, a bateria e o baixo entrariam depois, tentando acompanhar “o tempo totalmente maluco” próprio do estilo de Fainguelernt na guitarra. “O que foi um puta problemão, porque, cara, é quase impossível se adequar a ela, sabe. Ela tem um jeito muito próprio de tocar. Isso foi bem desafiador, como construir uma casa partindo do teto. A gente teve que ir fazendo por partes.”

O resultado é o que Fainguelernt descreveu na época como “bossa-pop-rock decadente com pinceladas punk”: um disco anárquico e alegre que concilia jazz, rock e sambinha de cuíca, às vezes na mesma música. Também é, segundo ela me explicou, a representação do último impulso de uma libido jovem, a última tentativa de viver sem concessões antes da morte da inocência implicada pela vida adulta. Ela largou a faculdade de pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ —na qual seu pai é professor-assistente— por volta dessa época, para seguir a carreira musical.

“Eu tinha muito esse impulso de querer fazer, sabe?”, ela disse. “Me arrependo de várias coisas, obviamente —minhas primeiras canções [que estão] ali eu compus com 16 e gravei com 18.  Mas eu queria muito que fosse jovem, que tivesse esses pensamentos que eu dava como certos. Metade do disco eu com certeza não teria gravado se esperasse alguns anos. Ou talvez nem gravasse nada.”

 

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Show em Belo Horizonte, 2019

Perguntei depois ao produtor argentino Martin Scian —que mixou os dois álbuns de Ana Frango Elétrico e coproduziu o segundo— se tinha sido difícil trabalhar em cima das canções gravadas ao contrário. “Difícil é mixar um disco que não tem muito sustento de conteúdo”, disse Scian, com o sotaque carioca de quem morou no Rio por muito tempo. “É o que acontece toda hora com os artistas que tocam na rádio, sinceramente. Tem muita coisa que é uma megaprodução, mas no fundo não tem muito para falar. E às vezes isso dá muito trabalho, porque você tem que botar muita ornamentação, muita instrumentação extra. No caso da Ana era diferente. Certamente tinha essa dificuldade de entender como fazer o som dela, porque não é um som convencional. Mas o mais importante, que é a ideia, ela já tem.

“Quando você propõe uma ideia muito maluca para alguma coisa, geralmente quem faz a produção é sempre um pouco mais careta. Com a Ana é o contrário. Acho que a gente se deu muito bem justamente por causa disso: a gente tem a mesma filosofia de que produzir um disco, no fim das contas, é meio que fazer o que você quiser. E tem muitas coisas que são surpreendentemente fáceis. Você tem que achar as pessoas certas, no lugar certo, no momento certo, e se tudo isso acontece, a parada vai sozinha.”

 

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Idem

Mormaço Queima saiu no início de 2018, de forma independente. O show de lançamento, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, lotou tanto que pessoas foram barradas na porta. O disco começou a circular entre os frequentadores de espaços da chamada cena underground carioca, como a Audio Rebel —um point tradicional de experimentação musical no Rio, que funciona há 15 anos num casarão do Botafogo que um dia foi uma unidade dos Correios— e seus concorrentes mais jovens, sujos e fora da zona sul, como o Aparelho e o Escritório. Lentamente, o álbum também começou a ficar conhecido em São Paulo, e Fainguelernt passou a viajar para tocar lá. 

Ela chegou a passar uma temporada na cidade, hospedada na casa de um tio, e se aproximou nesse período do músico paulista Bruno Schiavo. Meio por acaso, os dois começaram a trabalhar no que viria a ser Tem Certeza?, o single do segundo disco. A letra da música é um flerte-chantagem com uma carga de chutzpá

Você tem certeza
Que não vai me aproveitar?
Você tem certeza
Que não vai me aproveitar?
Posso morrer cedo ou até me matar
Taquicardia deitada no sofá

“Acho o som da Ana um tipo de antídoto para as situações mais chatas da música brasileira, sabe?”, disse Schiavo. “Tem muita manifestação cômoda nesse âmbito meio indie, meio nova MPB —que é um título péssimo, aliás. Tem um certo psicologismo, um ponto de vista de um narrador extremamente preocupado com questões existenciais, o eu-lírico que não chega num ponto universal. E essa despretensão da Ana e da poesia provocadora dela tem uma força que pode oferecer saídas para a poética, para as sonoridades. Geralmente essas coisas vêm juntas. Quando uma pessoa é inquieta, ela atua em todas as frentes.”

Schiavo afirmou que, no meio independente, ninguém contrata músicos profissionais para produzir um disco. Todos trabalham com amigos, para amigos. 

“É muito diferente do que acontece num nível mais consolidado da tradição musical do Brasil. Por exemplo, Criolo e Milton”, disse, se referindo a uma parceria recente dos dois artistas. Schiavo deu uma risada sutil. “Não vejo necessidade, sabe, de realizar esse encontro.”

 

Em tempos normais, cerca de 80% da renda de Alexandre Matias vem de shows, festas e cursos, mas ele não gosta do rótulo de produtor cultural. Em vez disso, prefere ser chamado de curador. No entanto, Matias —um homem alto e soturno de 45 anos— pode ser visto pondo a mão na massa com frequência, seja rasgando pessoalmente os ingressos na porta dos shows que organiza, seja discotecando nas festas que levam o nome do Trabalho Sujo, o site de música que ele criou em 2000 e mantém até hoje.

Pelo telefone, ele me detalhou a burocracia complexa do Centro Cultural São Paulo (CCSP), no qual dirigiu a programação musical por dois anos e meio, até ser exonerado pelo prefeito Bruno Covas em novembro de 2019. Tirando “um ou outro mês em que pintava uma grana do borderô”, nunca havia orçamento para trazer artistas de fora da cidade.

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No festival Recbeat, em Recife, 2020

“Eu repasso 100% da bilheteria pro artista. Nenhuma outra casa de show faz isso”, disse. “E é um lugar onde cabem 600 pessoas, então uma banda média que a gente consegue —não digo lotar, mas encher— tira 10 mil reais, com preço de ingresso de 25 reais, o que é um valor bom. Não é o que o Sesc paga, mas qualquer outra casa normalmente paga metade da bilheteria.”

Matias conseguiu trazer Ana Frango Elétrico  para tocar no CCSP duas vezes, depois de negociar com a gestão do espaço —uma vez com Marcelo Callado, outra com a música Sophia Chablau, ambas com bom público. A saída para economizar foi deixar a banda no Rio.

“O nome dela chama atenção de cara”, disse. “É nonsense e ao mesmo tempo pop —não é o nonsense pelo nonsense, é uma coisa que fica na cabeça. Ela tem uma energia juvenil muito transparente. É um som novo, não só no sentido de original mas no sentido de jovem, tem uma vitalidade. Quando você pensa na música brasileira num sentido de mercado, o que você vê é justo o contrário: são artistas quase sempre se repetindo, querendo achar fórmulas para ficar fazendo a mesma coisa. O melhor exemplo disso é o sertanejo. Se pegar o funk, teoricamente, tem um espaço de invenção e criatividade, mas vai para esse outro lado, também. É uma pena. A maioria do público brasileiro só consome esse tipo de música e não percebe… Não tô nem falando que isso tem uma coisa de mercado de massa, sabe, não acho que Ana Frango Elétrico vai ser consumida pelo mesmo pessoal que consome a Anitta. Mas você fica vendo um monte de gente reclamando, que ‘Ah, não tem mais música brasileira como antigamente, música boa era até os anos 80, anos 70’, e eu sinceramente acho que a gente está vivendo a melhor época da música brasileira.

“A quantidade de discos bons por ano que são feitos no Brasil é muito superior ao que era feito nos anos 60 e 70. Tenho certeza que se pegar nomes como o Zé Manuel, o Ganjaman ou o Tim Bernardes, daqui a 20 ou 30 anos eles vão ser equivalentes ao Tom Jobim. Só que o problema é isso: diferente do Caetano, Chico e Tom Jobim nos anos 60, esses caras não conseguem atingir o mercado de massa. E aí fica parecendo que nada acontece.

“A gente tem uma cultura muito avançada, moderna, contemporânea, que o mundo inteiro está consumindo, mas o jornalismo acaba dando espaço para o disco novo do Caetano ou o novo meme, e com isso a gente perde esse momento. Mas acredito também que é uma fase. Muito artista bom vai se perder nesse tempo, porque não vai conseguir manter seu mercado, mas os bons mesmo vão continuar. E a Ana está entre eles.”

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Em um ensaio fotográfico de 2017 para o clube de designers Centro-br

Talvez a característica definidora de Fainguelernt seja a sua aversão a rótulos, tanto em relação à própria música como em relação a si mesma. Quando criança, não quis fazer bat mitzvá “nem fodendo”, nem primeira-comunhão (sua mãe é católica, devota de São Jorge). Ela —que atualmente namora uma mulher— detesta a palavra bissexual, por considerá-la binária demais. Para além da história familiar, uma das razões para a escolha do heterônimo Frango Elétrico foi a ambiguidade de gênero que ele sugeria, bem como a ideia de renunciar à lógica patriarcal de sobrenomes. Ela é adepta do filtro do Instagram que simula uma barba no rosto do usuário, e se irrita quando algum fã a chama de linda. Quando perguntei se ela se identificava como não-binária, seu tom de voz denunciou um tédio profundo.

“Meio sim, meio não”, disse. Tentei insistir. Ela então cantou uma letra que sua amiga Sophia Chablau —atualmente gravando seu primeiro álbum— tinha enviado para ela havia pouco tempo:

Quando você
Parar de tentar entender
A si, a todos, numa regra geral
Nessa equação fatal
Eu vou poder te mostrar
O lado das mulheres-meninos

Entendi o recado e mudei de assunto.

 

Para o seu segundo disco, Fainguelernt queria frustrar expectativas. Lançado um ano e meio depois de Mormaço, Little Electric Chicken Heart pode soar, numa leitura inicial, como o oposto de seu antecessor. No lugar das pinceladas punk e do descompasso proposital, entram arranjos elaborados de metais e sopros; no lugar da juventude extrema, entra um saudosismo assumido; no lugar da anticantora, entra a crooner dos anos 50 e 60. O álbum foi gravado ao vivo —ou seja, com a banda tocando junta em um estúdio bem maior— e pensado para ter começo, meio e fim. Enquanto o disco anterior tinha sido uma coprodução dela com outros quatro músicos, no segundo álbum esse trabalho foi dividido apenas com Martin Scian. “Eu tinha uma vontade de provar que sabia fazer de outro jeito. Tipo, ‘Se eu quiser, eu faço isso. Vocês não podem esperar nada de mim’”, disse ela.

LECH saiu pelo Risco, um dos principais selos independentes do Brasil, se não o principal. Gui Jesus Toledo, o fundador da gravadora, tinha ficado intrigado com o álbum anterior. “O Mormaço foi o disco que eu mais ouvi em 2018”, disse. “Só não foi o disco do ano porque foi um pouco mal-trabalhado, mal-divulgado. Eu mesmo tô diariamente procurando coisas e só caí nesse disco por acaso, quando já tinha uns quatro, cinco meses do lançamento.”

Ele me explicou que uma boa estratégia de divulgação consistia em saturar as redes sociais com posts sobre o lançamento em questão, para forçar o algoritmo a mostrá-los nos feeds de mais gente. Ter um clipe também era algo essencial.

“Eu, como selo, gosto muito de pensar qual que é a história do artista, então a gente foi conversando muito disso, qual que era a narrativa da Ana, como que isso ia pra fora…”

“E qual é a narrativa dela?”, perguntei.

Ele riu. “Não é tão maniqueísta assim, isso ou aquilo”, respondeu. “Acho que a Ana tem essa coisa plural de ser uma multiartista, multi-instrumentista, de ter produzido o disco além de compor, então ela é muito completa. Ao mesmo tempo, ela é muito jovem, então tem apegos, mas sabe trabalhar com os apegos. Apesar de não ter uma formação musical clássica, ela manja muito de música. Então o que ela pega de referência, ela extrapola. Ela mergulha e faz a referência trabalhar a favor dela. Tipo, você deve saber que muita gente ouviu Mac DeMarco.”

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A menção foi uma pequena viagem no tempo. O canadense Mac DeMarco —cujas canções são marcadas pela bateria seca, voz propositalmente desafinada e guitarra com reverb— tinha sido a grande sensação do indie seis ou sete anos atrás.

“Pois é”, ele continuou, “acontece que muita gente ouviu e tem muita coisa muito parecida, tipo tu…tsch – tu… tsch —só que isso é a primeira camada de Mac DeMarco. Muita gente só copiou os timbres e esqueceu de copiar a ideia, parece que não entendeu como na verdade ele estava sendo inovador ao resgatar aqueles instrumentos. O Mac DeMarco tá super presente no LECH. Mas ele tá junto com a Billie Holliday, então isso leva pra outro lugar.”

Toledo aproveitou um churrasco em seu estúdio, em São Paulo, no qual conheceu Fainguelernt para propor uma microrresidência artística —e, posteriormente, o contrato de gravação. LECH ganhou repercussão, explicou Toledo, que é formado em publicidade pela ESPM, quando “lugares diferentes” começaram a falar do álbum. “Não era mais só a galerinha do Rio. De repente o Jards Macalé falou dela, o Kassin, que é um puta produtor do Rio, falou que o disco era legal. Antes de lançar, fiz uma coisa muito chata e pedante de ficar ligando pras pessoas e mandando mensagem, tipo, ‘Mano, garante a Ana já no teu festival, tá um puta disco, tem que garantir antes, ser o primeiro a fazer isso’. Isso foi dando uma ativada no radar da galera.”

Um ponto de virada veio quando Anthony Fantano, um youtuber norte-americano —considerado uma espécie de celebridade entre os fãs de indie—, publicou uma resenha do álbum em seu canal. Fainguelernt não fazia ideia de quem ele fosse, e começou a receber uma torrente de mensagens dando parabéns pela repercussão.

“Foi meio chocante depois disso”, disse Toledo. “Foi todo o aval que os jornalistas brasileiros queriam, sabe? Antes de lançar, a gente ficou tentando [divulgar] em jornal e tal, mas sinto que o jornalista tem medo de dar o aval do novo e apostar numa coisa que ele goste. Ele só faz isso quando já tem alguém de fora dando a credibilidade. Isso foi curioso. Deu uma semana depois que saiu o Anthony Fantano e todos aqueles festivais que nem me respondiam, todo mundo começou a procurá-la.”

A projeção também atraiu a atenção de haters, que julgavam que Fantano devia ter escolhido outros nomes do Brasil para resenhar. “O hater interno da cena é o mais cancerígeno, porque não entende o quão importante é um artista brasileiro, no nosso cenário, estar na página do Anthony Fantano. Ele é tão recalcado que preferia que não tivesse nada lá, já que não é ele. Bicho, vai ouvir as coisas que ele faz review, sabe. Ele jamais vai falar de um rockzinho batido cantado em português. Se é cantado em português, ele quer a coisa tropical, entende? Quer achar símbolos de Brasil.”

 

No final de 2019, Ana Frango Elétrico foi escolhida como artista revelação no prêmio anual da Associação Paulista de Críticos da Arte. A escolha da APCA foi simbólica; significou que o álbum tinha furado a bolha de vez e alcançado um público mais velho, tradicional e formador de opinião. “Tomara que esse prêmio fique menos branco e menos heteronormativo”, ela disse quando subiu ao palco —algo consistente com uma artista alérgica a pedestais.

“Ela contesta muito essa coisa de que é a pessoa famosa, o artista, é tratado como um semideus”, me disse Toledo. “Ninguém mais é semideus, o artista tá cada vez mais na plateia. Não dá mais pra construir aquele imaginário do artista-caetano-veloso, que é intocável e maravilhoso. Acho isso bom da Ana, ela vai dando rasteira nas pessoas. Uma vez ou outra isso assusta tanto o público como até os jornalistas. Mas depois da rasteira, se você olhar pra trás, você fala, ‘Nossa, caralho, que da hora que ela me desafiou assim também’. Ela questiona as coisas, isso é inegável. As pessoas, para ouvirem a música dela, não podem estar tanto na zona de conforto.”

Experimentei a minha própria versão dessas rasteiras quando perguntei a Fainguelernt como ela lidava com o conhecido machismo do mundo indie.

“Sou mais pau duro do que eles”, disse ela. “Tô cagando pra eles. Eu faço com vontade e acho muita coisa muito pau mole, sabe, tipo, muito sem vontade. Acho que eu toco guitarra pra caralho e tô cagando pra eles. Não é uma questão [de] ‘Ah, eu quero produzir porque sou mulher’. Não é uma questão pra mim.”

ABRE

 

As onze pessoas ligadas de alguma forma a Fainguelernt com quem falei acrescentaram surpreendentemente pouco à entrevista que fiz com ela. Ela tem uma abertura incomum mesmo para uma artista, mesmo para alguém da primeira geração acostumada desde cedo a gravar a própria vida e a vê-la gravada. Ela não parecia ter problemas em admitir o que chamou de “defeitos silenciosos” (a impulsividade, a dificuldade de ouvir opiniões contrárias), e disse que, no fundo, era uma pessoa doce e afetuosa, ainda que muita gente não pudesse imaginar. Ela falou abertamente da renda irregular dos shows e de como a organização —do dinheiro, de um site eventual, de uma possível confecção de camisetas— ainda era um problema. Em outras entrevistas, falou de como o câncer contraído pela mãe —com quem ela mora— forçou um amadurecimento repentino e das “paixões avassaladoras” que viveu com mulheres. Alguns adjetivos que ouvi de amigos e colaboradores (não há exatamente uma diferença) foram interessante, ótima, impulsiva, sincera, precoce, admirável, frenética, boa praça, intensa, diferente, genuína, sagitariana, maluca (no bom sentido), chocante (também no bom sentido).

“Ela é divertidíssima”, disse Marcelo Callado. “É muito bom trabalhar com ela. É bacana estar junto de uma pessoa que tem o mínimo de planejamento. Você se sente mais confortável, mais seguro. Ela passa uma segurança, apesar de ser jovem —tenho idade pra ser pai dela, tô com 40— e tem muito talento.”

Callado é provavelmente um dos músicos mais relevantes do Rio hoje. Ele foi baterista de Caetano Veloso por dez anos e tocou com Jorge Mautner e Branco Mello; também teve um número incontável de bandas e lançou três discos solo. Ele entrou como um dos produtores no primeiro disco de Ana Frango Elétrico, Mormaço Queima, e estava como baterista na turnê de LECH até o início da pandemia que suspendeu os shows.

“É uma pena, cara. Mas isso vai retomar, porque ela sabe manter a coisa também. Ela é esperta à beça, a Ana.”


Crédito da primeira foto: Matheus Mav.

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